A nossa sociedade cria distinções entre os gêneros que vão muito além das diferenças físicas. Existe uma variedade de características que representam a figura de homem na atualidade. Muitas regras impressas no inconsciente coletivo social que oprimem a subjetividade e força homens a vestirem uma “máscara”, para que assim sejam aceitos nos seus grupos. 

A “máscara” é  o estereótipo criado para definir o  que é ser homem, que inclui: não deve chorar; não deve ter dúvidas; ter que ser hétero e a necessidade de reforçar isso a todo instante; ter que ser “pegador”; estar pronto para brigas, o que incita a violência naturalizada; ter um corpo robusto; etc. A tal masculinidade apreciada e tão exigida pode acarretar muito sofrimento biopsicocultural* nas crianças e adolescentes. Eles aprendem (ou fingem) reprimir seus verdadeiros sentimentos em nome do que é socialmente aceito.

Efeito colateral

O documentário “The Mask You Live In” traz alguns dados estatísticos sobre os Estados Unidos da América.  Apontam que, em comparação com as meninas, os meninos têm muito mais chances de serem reprovados, abandonar ou serem expulsos da escola. O suicídio é a terceira causa de morte dos garotos (são pelo menos três por dia). Noventa por cento dos assassinatos são cometidos por homens, que também são os que mais morrem, bem como o alcoolismo e a dependência por outras drogas. Noventa e três por cento dos menores de 18 anos estão expostos a pornografia na internet e 21% usam pornografia todos os dias. Junte esses dados com a cultura do estupro (de acordo com o documentário 1/3 desses jovens pensaram em cometer estupros se não houvesse chances de serem pegos), a outros fatores que também são reflexos de uma construção “cultural” masculina e reflita.

Status Masculino

Froma Walsh** aborda esse mesmo conteúdo no livro Processos Normativos da Família – Cap. 14. Ela trata dos desafios, as problemáticas e a importância do terapeuta posicionar seu trabalho em relação às questões de gênero, no que diz respeito a padrões socioculturais. Entre eles está o poder atribuído ao gênero: “os privilégios associados ao status masculino organizam os processos familiares”. Isso porque os homens ensinados a renegar sua vulnerabilidade em prova à sua masculinidade, não conseguem estabelecer laços afetivos sólidos e profundos. “O poder de acordo com o gênero encoraja os homens a se sentirem no direito a sexo e a usarem violência para manterem seu poder sobre as mulheres, crianças ou outros homens.” Isso reforça o comportamento agressivo e violento, perpetuando o sofrimento tanto para os próprios homens, quanto para a sua rede de relações.

Quanto custa?

Muito embora o documentário expõe os prejuízos trazidos à luz da cultura machista norte americana aos seus meninos e homens, podemos ampliar esse olhar para realidade mais globalizada. Apesar de cada cultura ter suas particularidades e influências que vão muito além do gênero, como cor da pele, hierarquias de poder econômico ou social, etc.,  é possível observar, ainda, a subjugação do gênero feminino. Mesmo um menino é visto como “menininha” se ele não preencher os requisitos classificatórios de macho pertencente a cada cultura. E o preço que esses homens pagam é muito alto. Com sofrimento, com relações falidas,  profissões frustradas, até mesmo com uma vida de delitos e a privação da liberdade, sem falar nos números crescentes de suicídio.

Ainda que esses aspectos mais radicais inexistem na vida de um homem, basta sua infelicidade para repensarmos nossa postura como cidadãos, psicoterapeutas ou não. Diante desse cenário precisamos entender que as construções estereotipadas limitam o desenvolvimento humano. Também, que devemos auxiliar na expressão das emoções e sentimentos subjetivos independente da variação do gênero. E ainda, que somos responsáveis pela construção de uma sociedade mais justa e amorosa. De fato, temos muito trabalho a fazer.

*Biopsicocultural: o homem como expressão global – biopsicocultural -, isto é, o homem como ser biológico pensante, produtor de culturas e participante da sociedade, tentando chegar, assim, à compreensão da existência humana.
**Froma Walsh:  psicóloga clínica e terapeuta familiar americana. Ela é cofundadora e codiretora do Chicago Center for Family Health e professora emérita de Mose e Sylvia Firestone na Universidade de Chicago. É conhecida por sua atuação na área de família, com destaque para a resiliência familiar, terapia de casais, recuperação de traumas e perdas, além das mudanças nas famílias contemporâneas. Ela é autora de diversos livros

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